
Não lavei os meus seios por terem ainda o calor dos meios, das palmas das
suas mãos... Não lavei as mãos por conservarem inteiros, os tons, os sons e
os cheiros da sua pele que me encanta... Não lavei a minha pele por ter nela
tatuados todos os nossos momentos. Quanto aos meus sentimentos, eu não
conseguiria lavá-los. Não são solúveis em água. Eles são sim, pura saudade que
deságua ribanceira abaixo pelo peito, perdura feito ar rarefeito que me comprime
a alma. E, a alma sim eu banhei em jasmim e a conservei nua e completamente
sua à espera de qualquer chamado ou qualquer brisa mansa vinda de você, pra
reagir. Bastava você vir! E esperando, percorri todas as esquinas de uma grande
avenida infinita sob uma lua que foi nossa cúmplice... Bati palma em todas as
moradas existentes, às margens de um rio que corre paralelo à minha corrente
sanguínea. Voltei. Folheei cada livro seu e com uma imagem sua na mão, fui de
encontro a todos os meus personagens e os despi, dentro das paredes de um
quarto onde por tantas e tantas vezes escrevemos a nossa história, com suor e
com os sinais de nós dois, nos quais as coincidências dos gemidos gritavam as
nossas indecências. E doeu-me de verdade, neste momento, a sua falta. A falta
dos lamentos e dos arrepios dos mamilos ao menor toque da sua respiração.
Do peso do seu corpo, indo e vindo contra a minha carne, invadindo. E rezei. E
nada! Sentei-me então, numa paisagem de final de tarde, com um cigarro entre
os dedos e, desfiando um a um todos os meus medos, eu entendi que ninguém
te viu....Que ninguém sabe de você! E então eu me pergunto: E se tivéssemos
nos encontrado...
Teria adiantado?
Você teria me amado?

Que direito tinha você de se vestir de anjo,
tirar-me do inferno,
levar-me para conhecer o céu e, depois ...
...trazer-me de volta?
Eu já havia me esquecido como era enxergar estrelas ...
|